Homeland: Season 1

sábado, dezembro 24, 2011



A cuidadosa criação de um terrorista.

Ao inicio de Homeland, eu duvidava que Brody fosse um terrorista. Durante toda a temporada, as conjecturas de Carrie não levavam a qualquer lugar, suas suspeitas eram infundadas e de certo modo parecia que a equipe criativa da série queria que nós não acreditássemos que Brody era um terrorista.

Não me surpreendi quando finalmente, em The Weekend, sétimo episódio, que Nicholas não era de fato o prisioneiro de guerra que se tornara um terrorista. Pelo hábito — de certa forma todos estamos acostumados a esperar por um plot twist em thrillers como Homeland — e graças a falta de credibilidade atribuída a Carrie ao longo dos episódios — o único momento em que ela parece estar certa é quando Brody passa pelo polígrafo — essa reviravolta podia facilmente ser antecipada.

Esse foi o grande trunfo de Homeland, um de seus momentos de brilhantismo. Ao contar com a atenção do espectador, com a provável antecipação de uma reviravolta, os roteiristas de Homeland conseguem enganá-lo, pegando-o desprevenido, no momento em que acreditava já ter previsto todo o caminho que a série percorreria do sétimo episódio em diante

Após uma conversa entre Brody e Carrie, no fim do sétimo episódio, em que ele parecia apresentar uma honestidade brutal e o surgimento de um novo terrorista — Tom Walker — quem poderia desconfiar de Brody?  Nesse momento, roteiro surpreende com uma reviravolta digna de assim ser chamada. Fossem os reais motivos retorno de Brody aos EUA revelada mais cedo, todo impacto se perderia. Felizmente, a trama é desenvolvida de maneira cuidadosa para que descubramos as reais intenções de Brody apenas quando já pensávamos que ele era inocente.

Tudo descrito até aqui teria sido ineficiente caso os personagens de Homeland não fossem tão cuidadosamente desenvolvidos. Da atitude paternalista e comedida de Saul até a ansiedade perturbadora e claustrofóbica de Brody dentro do bunker, passando pelo desespero de Carrie ao se ver isolada pela descrença daqueles que a cercam, todos os personagens demonstram imensa profundidade.

Nenhum dos citados acima pode ser descrito utilizando um único adjetivo, eles são mais que isso. Até aqueles que parecem existir para cumprir uma função especifica, e as vezes temporária, se revelam mais do que pareciam inicialmente. Aileen, por exemplo, poderia ser apenas uma personagem sem a menor importância que servia apenas como um elo que levasse a CIA até Tom Walker, mas os roteiristas decidem dar a ela um passado e uma personalidade ao mesmo tempo em que conseguem trabalhar outro personagem, Saul, enquanto os dois voltam do México.

Carrie, como mencionei quando escrevi sobre os dois primeiros episódios da série, é uma protagonista perfeita para uma série como Homeland. Graças aos seus problemas psicológicos, o espectador fica exatamente como aqueles que a cercam, constantemente duvidando das suas suposições. Nos episódios finais isso fica ainda mais intenso, graças a manifestação dos sintomas da sua bipolaridade. No fim da temporada, sequer é possível entender o que se passa na cabeça dela, pelo menos até que Saul conseguisse desvendar a timeline criada por ela. Vale destacar aqui a atuação de Claire Daines, que consegue tornar os ataques eufóricos assim como os momentos de profunda tristeza de Carrie extremamente criveis.

Brody, o ‘vilão’, se revelou um personagem espetacular não só pelo processo que o levou a se transformar em um terrorista mas pela maneira como ele atua no seu retorno aos EUA. Seria simples mostrá-lo como um homem frio e distante, ou simpático apenas em público para tirar vantagem da sua posição apenas apara alcançar seus objetivos. Felizmente, ele se revela muito mais complexo do que simplesmente um ‘homem com um objetivo’.

Não tivesse Brody sido tão bem desenvolvido — o ciúme da relação que sua esposa teve com o melhor amigo, a vontade de estar presente na vida dos filhos e de prepará-los para quando ele finalmente realizasse o seu sacrifício — seria incompreensível sua desistência a beira de finalmente realizar o atentado, pareceria sentimental ou inverossímil que ele desistisse apenas por causa de uma ligação da filha.

Em meio a tantos personagens bem desenvolvidos, talvez o único que pareça sub-aproveitado é David. Ele foi apresentado como um burocrata carreirista e pouco mudou em doze episódios. Sim, ele recebeu alguma atenção dos roteiristas ao, por exemplo, sabermos que ele tem problemas com os filhos, ou a ex-mulher, e que teve um relacionamento com Carrie, mas isso foi pouquíssimo aproveitado.

Tematicamente, a série propõe algumas discussões interessantes. Foi com alegria que percebi que os roteiristas cuidaram para que aqueles que poderiam parecer facilmente vilões sem profundidade alguma, os terroristas, receberam a mesma atenção dos ‘heróis’.

Pela maneira como os roteiristas nos apresentam os personagens e as situações, é impossível qualificar um grupo de personagens como heróicos ou vilanescos. Esqueça por um segundo as origens do conflito dos EUA contra o Oriente Médio e pense em como a série apresenta a situação presente.

Enquanto Abu Nazir é mostrado como uma figura pacifica, aparentemente acolhedor e amoroso, os americanos são mostrados como figuras violentas, que matam inocentes em mesquitas ou atiram um míssil próximo a uma escola.

Não se engane, isso não é uma tentativa por parte do roteiro de transformar os terroristas em inocentes vitimas. Entretanto, há uma clara intenção de balancear os lados, para mostrar que qualquer um deles é capaz de qualquer coisa, e de certa maneira mostrar a hipocrisia dos americanos.

Um momento que deixa claro essa posição americana como os donos da verdade, os que estão uma cruzada justa para proteger o mundo livre, e que tem uma ironia imensa é quando David diz para Saul, no ultimo episódio, que, ao contar o que ele descobriu sobre ataque causador da morte de Issa, filho de Abu Nazir, ele estaria entregando a maior ferramenta de recrutamento que eles poderiam dar aos terroristas. Ora, o que o governo tenta fazer com Brody assim que ele é resgatado? Ele se torna imediatamente um meio de propaganda e manipulação do publico, para que possam continuar sua guerra ao terror.

Tudo isso levado em conta, Homeland foi, até o fim, literalmente graças a um excelente cliffhanger  — Carrie finalmente consegue conectar todos os pontos quando esta prestes a perder a memória — a melhor série nova e a melhor temporada do ano.

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