Glee 6x12: 2009

domingo, março 22, 2015


O começo do fim.

Quando fiquei sabendo pela primeira vez da proposta de "2009", torci o nariz como tenho feito para muitas tentativas de Glee nos últimos dois anos. Já tinha visto como a história começou no piloto e essa parecia apenas uma tentativa barata de recriar a atmosfera do começo de maneira barata e sem propósito certo, especialmente se não teríamos Finn para complementar as aparições dos cinco originais. As fotos promocionais que saíam davam a impressão de um 2009 totalmente descabido, em que Rachel parecia uma fanática religiosa, Kurt nada tinha a ver com seu visual do início da série e só Tina, Artie e Mercedes ressoavam alguma semelhança. Para a minha sorte, estava completamente errado.

Se fisicamente, era impossível trazer alguns dos atores de volta a suas exatas personas adolescentes, compensaram com atuação, trazendo de volta os trejeitos de cada personagem que evoluíram ou se perderam com o tempo. A Rachel esquisita e controladora do piloto estava lá, até mais parecida fisicamente do que eu tinha percebido pelas fotos; o Kurt que quebra o pescoço e carrega uma atmosfera de depressão enquanto tenta desafiar o mundo com sua excentricidade também. A Mercedes obcecada por se destacar e superar Rachel Berry, inocente ao ponto de se apaixonar por Kurt, deu as caras sem dificuldades. A Tina gótica, que se finge de gaga e concilia a árdua missão de passar imperceptível ao mesmo tempo em que gostaria de deixar a timidez de lado e se tornar uma estrela, estava idêntica à do piloto, em aparência e trejeitos, foi praticamente transportada de 2009 pra cá. E Artie, que convenhamos, foi o personagem que menos mudou, fisicamente ou na atuação, se manteve a constante do grupo.

A ausência de Finn também não comprometeu a proposta tanto quanto deveria, porque o roteiro foi extremamente inteligente quanto a isso. Ao aproveitar os questionamentos do próprio grupo, debatendo se aceitaria ou não a entrada de alguém tão diferente deles, Glee fechou com perfeição o ciclo daquele primeiro grupo de alunos. Ao entender que Finn, seu futuro líder, era em muitos aspectos um deslocado como eles, permitiram que o quarterback descobrisse onde se encaixava no mundo e, consequentemente, ajudasse muitos depois dele a aprender essa mesma lição. Lição que foi o mote da criação do New Directions, dos dois episódios finais e da série como um todo: o pertencimento.

Cada nuance, cada detalhe e costura com o episódio mostra como cada um colaborou com essa construção de uma maneira ou outra. Emma, também de volta às suas origens como se nunca tivesse deixado de ser assim, foi de importância maior do que deixou transparecer, talvez por nunca ter tentado tomar o crédito por nada. Com preocupações maiores do que limpar alimentos e superfícies psicoticamente, buscou o envolvimento de Burt para interceder por Kurt antes que ele levasse a reflexão do panfleto a sério ("vantagens e desvantagens de acabar tudo", sério?) e foi o grande apoio de Will como tem sido, discretamente, desde o início, contando com a ajuda preciosa do diretor Figgins, que não podia aumentar a verba do coral, mas podia oferecer uma memória em fita VHS, com a vitória do coral de Will nas Nacionais de 1900 e guaraná de rolha. Pode parecer bobagem, mas como vimos essa fita significar tanto para Will no episódio piloto, foi uma grata surpresa ver, sob uma outra perspectiva, quem teve a ideia de utilizá-la.


Da mesma forma, Rachel enxergou a importância de Will para seu sucesso futuro e tentou interceder com Terri Schuester, na época fingindo uma gravidez e tentando, de todas as formas, centrar a atenção que Will dedicava ao coral em si e em suas vaidades. Nessa missão específica, Rachel não teve lá muito sucesso, mas vale o esforço e mostra as raízes de sua relação com Will, que tanto se fortaleceu que conduziu grande parte dessa temporada. Mais emocionante ainda foi ver um pouco mais de sua rivalidade com Mercedes, traduzida na insegurança que uma causava à outra, no pensamento retrógrado da própria Rachel de que Mecedes tinha um público específico e que não poderia ir tão longe, na agonia desesperada de Mercedes em se provar melhor porque "a garota branca sempre vai primeiro". A mãe de Mercedes foi assertiva ao dizer que uma melhoraria a outra e que se tornariam grandes amigas (e rivais), um plot que vemos acontecer discretamente, sempre maquiado com humor e embates do tipo "diva-off" e que tem grande importância no episódio 100, se decidirem dar uma remexida na memória como eu resolvi fazer depois dessa retrospectiva.

O segmento de Kurt é o mais forte emocionalmente, e eu não tinha percebido o quanto ele era o mais sem rumo dos integrantes originais até vê-lo de novo nesse estado de melancolia, costurando sozinho no quarto, sem o apoio pleno de Burt, que não estava pronto para falar abertamente sobre sua sexualidade e nem sabia como ajudá-lo a sair da depressão que se instaurou após a perda que ambos sofreram. Interessante ver como Kurt foi forçado a fazer parte de algum time e se encontrou imediatamente no coral, e impagável observar as reações do Burt daquela época, muito mais bronco, ainda que com o coração de babuíno ouro que conhecemos, ao constatar que não teria como reclamar, porque o Glee Club também funciona como um esporte, de certa forma.

Tina e Artie novamente ocupam posições mais cômicas e de pouco destaque, mas sem surpresas ficam como a minha parte favorita do núcleo jovem. A relação deles, embora baseada em muitas mentiras (no caso de Tina, nem Meryl Streep poderia fingir que gagueja tão bem por três anos e meio) é de uma doçura e inocência incomparáveis. Chega a dar um nó na garganta a narração de Artie, dizendo que Tina é a única que o enxerga como uma pessoa de verdade, interagindo com ele e não com a cadeira, e segundos depois, a cena já causa risos com a felicidade juvenil dele porque ela toca seu ombro ou seu braço. Maravilhoso ver um pouco mais de "I Kissed A Girl", que iniciou a tradição de solos cortados de Tina durante a série, e ainda a audição de Artie, "Pony", nunca mostrada. Hilário, ainda, saber que fizeram suas audições por um desafio de um bando de góticos com os quais nunca tiveram contato em cena depois disso.


Sue e Will também tiveram sua porção de histórias de origens e aparentemente eram melhores amigos (na cabeça de Sue, pelo menos) que jogavam basquete toda semana. A preocupação de Sue com o coral vinha, sem surpresas, de sua insegurança em perder a posição de destaque ocupada pelos Cheerios, e o diretor Figgins foi direto ao ponto quando disse que o clube não duraria muito, pois os adolescentes estavam muito ocupados com o Friendster, MySpace e Blockbuster, todas coisas que chegaram para ficar. Está aí um exemplo de "mais do mesmo" que não prejudica, pelo contrário, só acrescenta algumas nuances à relação conturbada e esquizofrênica desses personagens.

Mais do mesmo, também, é a reprise de "Don't Stop Believin'" e a decisão não podia ser mais acertada. Não precisávamos de uma nova versão da música, como já fizeram na 1ª, na 4ª e na 5ª temporadas. Precisávamos ver Finn, que acertadamente não tem nenhuma outra cena de arquivo utilizada no episódio, só é citado pontualmente até o encerramento com essa performance, tão importante para a história do New Directions e especialmente da história daquelas pessoas com ele. Ainda que seja uma sequência que acentua ainda mais as disparidades físicas do elenco na época com os dias de hoje, é um fechamento perfeito para a recriação de 2009 que foi proposta. O pedacinho que tem Sue, Quinn e Santana (as duas últimas fora do episódio até então) observando é de arrepiar e traz uma série de memórias sobre como os grupos se misturaram a partir dali, sobre como o status quo do McKinley foi completamente revirado após a entrada de Finn, também forçada, como a da maioria dos integrantes.

Fica como curiosidade que "2009", na agenda de exibição da Fox, seria o nono episódio dessa temporada, inserido entre "A Wedding" e "Child Star". Sábia e feliz decisão a de colocá-lo como parte da series finale, pois o sentimento de nostalgia trazido por ele é o mais apropriado para o momento. A vontade que fica é de rever o piloto para ver se os fatos se encaixam com os mostrados aqui e, quem sabe, a partir daí, seguir com a série toda de novo.

Músicas:
"Popular": Wicked - Rachel Berry and Kurt Hummel
"Mister Cellophane": Chicago - Kurt Hummel
"I'm His Child": Zella Jackson Price - Mercedes Jones with church choir
"I Kissed a Girl": Katy Perry - Tina Cohen-Chang
"Pony": Ginuwine - Artie Abrams
"Don't Stop Believin'": Journey - New Directions

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2 comentários

  1. Leo, que review perfeita! Até o momento, já havia lido inúmeras resenhas emocionadas sobre os últimos episódios, mas nenhuma que dissecasse tão minuciosamente as particularidades deste que, pra mim, representa o verdadeiro final de Glee. Não que eu não tenha gostado de Dreams come true... Foi 2009, porém, quem conseguiu derreter meu coração peludo (alguém que se vangloriava por só ter chorado duas vezes assistindo filmes), deixando-me num estado emocional abaladissimo. A última cena da choir room, em que Rachel, Tina, Artie e Mercedes discutem a permanência de Finn foi a gota da água. A partir dali, o choro fluiu torrencialmente.
    Lembrei, assistindo ao episódio, porque havia me apaixonado por Glee, lá quando tinha 15 anos. Garoto desajustado no colégio, tendo de lidar com a descoberta de minha sexualidade homo, Kurt dizia muito sobre quem eu era. Embora ele tenha se tornado ao longo das temporadas um dos personagens mais aborrecidos da tv americana, identificar-me com o garoto gay que lida bravamente com seu coming out foi importantíssimo pra mim. Da mesma forma, Rachel, a garota insolente e nariguda, dizia muito sobre alguém tão insegura sobre si mesma que necessitava se auto afirmar exatamente naquilo que ela sabia fazer de melhor - tal como eu. Nesse sentido, fora inegável não se surpreender com a mulher madura e confiante de Dreams come true. Essa menina cresceu, hein! Talvez a maior surpresa do episódio tenha sido Mercedes. Nunca escondi possuir certa antipatia pela diva que não nasceu pra fazer backing vocal, mas não consegui deixar de me encantar com as dificuldades de Mercedes em se adaptar ao fato de que, para a menina negra solista da igreja, os objetivos seriam ainda mais difíceis de alcançar. De qualquer modo, o destaque, ainda que minúsculo, fica pra Tartie. Em cinco minutos, Tina - especialmente - e Artie foram melhor desenvolvidos do que em toda primeira temporada. E que casal fofo! Passei as seis temporadas pensando em Brittana como o par romântico mais bem resolvido da série, mas Tartie nunca me pareceu tão correto quanto nesse episódio! Eles, sim, são os verdadeiros losers. Sem muito drama, sem neuras por estarem abaixo da base da pirâmide social de McKinley. Acho que já deu outra perceber o quanto adoro esses dois...
    Finn, entretanto... Pois é. Nunca curti muito Finn. Me irritava o jeito bossy do garoto. Nunca entendi, também, a insistência na série em torná-lo protagonista ao lado de Rachel. O diálogo final dos garotos, todavia, me revelou porque Finn representava a espinha dorsal do New Directions: fora ele o responsável por juntar e misturar grupos e tribos tão distintas no mesmo microcosmo. Demorou pra cair a ficha. Nenhum episodio anterior (nem o Quarterback) demostrou isto de uma maneira tão sutil.
    No final das contas, o saldo foi positivo. Quando soube que o flashback iria ser o penúltimo episódio, fiquei de cara com a falta de planejamento da série. Pra quem não sabe, o episódio fora originalmente escrito por Ned Martel, mas Ryan Murphy e companhia pediram para reescrevê-lo, o que se confirma pela indicação dos nomes dele e de Brad e Ian como roteiristas do episódio. Após assistir o episódio, só pude louvar a decisão. 2009 cria um ciclo pra série e, mais do que nunca, mori de vontade de começar essa jornada toda de novo. Obrigado, Leo, por sua reviews essa temporada! A experiência de acompanhar cada episódio à luz de suas impressões foi deliciosa (mesmo que eu não tenha comentado nunca).

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    1. Obrigado você pelo comentário, me mostrando que não sou o único enxergando Tina e Artie da maneira que enxerguei ultimamente, Wellington. Não sabia que o flashback tinha sido reescrito, mas considerando o quanto casou com a proposta "passado e futuro" da finale, faz todo o sentido e não devia ter o mesmo apelo emocional antes.

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