Glee 6x13: Dreams Come True

domingo, março 22, 2015


Ser parte de algo especial não te torna especial. Algo é especial porque você faz parte.

Acabou. Não sei se com "gostinho de quero mais", considerando os percalços, mas definitivamente vai fazer falta. A contribuição de Glee para a cultura pop, para a inclusão de inúmeras minorias e temáticas na televisão e para a geração que vem depois, e provavelmente nem saberá o quanto foi moldada por uma série adolescente que experimentou o auge e o declínio na mesma velocidade, é inegável.

Em uma fala do início dessa última temporada, Spencer, descrito como um gay "pós-moderno" diz a Kurt que não deve o ambiente mais tolerante em que vive a Glee (ou ao Glee Club, no caso), mas a Modern Family. Cada uma fez a sua parte ao tratar com naturalidade as vivências de casais homossexuais, mas Glee certamente levantou muito mais bandeiras, não só representando os gays, mas os mais diversos perfis: garotas judias adotadas e obcecadas pelo sucesso no teatro; esportistas que também querem se expressar por meio da música e da dança; asiáticos vampiros multifacetados; líderes de torcida ultra-religiosas, lésbicas e gênios da matemática; rapazes com boca de truta e pouco dinheiro que compensam a falta de inteligência no sentido mais tradicional da palavra com a sabedoria das ruas e deliciosas imitações; pessoas com deficiências físicas e mentais que não se deixam definir só por elas; professores dedicados ao incentivo dos sonhos de seus alunos por meio das artes e professores contrários a tudo isso; negras divas e gordinhas que não se deixam abater e são "all about that bass"; transgêneros; disléxicos; grávidas na adolescência; pais dedicados e outros que ainda precisam aprender o que é dedicação; michês; crianças prodígio; compositores de música brega; irlandeses que não conseguem se comunicar; exímios dançarinos pressionados a seguir outras carreiras; bullies que guardam segredos; pianistas relegados ao segundo plano; irmãos acusados de ter um caso incestuoso; bêbados; personificações de rouxinóis. A lista é gigantesca e poderia seguir sem hora pra acabar.


Devemos muito a Glee, quer nos enxerguemos em alguma dessas facetas ou simplesmente não nos enxerguemos como vencedores o tempo todo. A imagem do perdedor, o loser  tão destacado nas fotos com L na testa que venderam a série, é a imagem que todos tivemos de nós mesmos em algum momento da vida, e Glee ensinou a abraçar essas características que nos tornam perdedores com ímpeto. É questão de enxergar o mundo não como ele é, mas como ele deveria ser, como Sue reproduz tão perfeitamente em seu discurso final.

Curiosamente, aliás, são de Sue os momentos que mais me emocionaram nesse desfecho, depois de tanta implicância com a figura inconstante dela. O reencontro com Becky e a sequência de "The Winner Takes It All" me deixaram em prantos. A canção do ABBA é, provavelmente, a que melhor define o sentimento deixado pela série, é a swan song de Glee pra mim, mesmo que o episódio tenha apresentado outras músicas significativas. Mais do que reproduzir o sentimento de Sue, em teoria derrotada, pela vitória de Will ao assumir a direção do McKinley e transformá-la numa escola voltada para as artes, que dá o exemplo para outras escolas mundo afora, a letra reproduz o meu sentimento com Glee:

I don't wanna talk about things we've gone through, though it's hurting me, now it's history. I've played all my cards and that's what you've done too, tothing more to say, no more ace to play. The winner takes it all, the loser standing small, beside the victory, that's a destiny.

"Dreams Come True" não é o final que eu queria para Glee, não em sua totalidade, mas se cumpre tão bem o seu papel, se traz à tona a mensagem que a série se propôs a passar, se vai fundo no emocional e resgata o que a série teve melhorar, não cabe a mim apontar os defeitos, de agora ou de antes. Soluçando, com a vista embaçada pelas lágrimas, durante todo o episódio, embarquei na proposta, no vagão dos perdedores, e deixei que titia Ryan Murphy e sua gangue, os grandes vencedores nessa corrida tão cheia de derrapadas, fizessem o seu trabalho, com tudo de questionável e de maravilhoso que são capazes de executar.


Assim, aceitei com poucas ressalvas o fato de Rachel terminar a série com Jesse, queridinho de muitos fãs em suas primeiras aparições, mas que teve uma postura execrável em seguida, ao invés de sozinha, focada em sua jornada profissional, com Sam ou mesmo com uma pessoa totalmente nova, como imaginei que seria mais coerente. Me foquei na sua vitória no Tony, celebrada pelos amigos, tão importantes para a chegada dela ali, no discurso lindo de agradecimento e no fato de estar carregando o bebê Faberry, já que, para quem não se lembra, Quinn se comprometeu a doar os óvulos que gerariam o filho de Kurt e Blaine. Esqueci as expectativas que tinha para a situação romântica da personagem e vibrei com o último solo extremamente expressivo de Lea Michele com "This Time", canção original de Darren Criss, que me causou estranheza na primeira vez que ouvi, mas que depois pareceu escrita especialmente para Glee, com cada palavra abrindo velhas feridas e indo direto na jugular para quem acompanhou esses seis anos.


Fiz vista grossa para a ausência de Santana, Brittany, Quinn e vários outros personagens importantes até o número final, porque entendo que precisavam de tempo para encerrar as histórias dos personagens que se propuseram a desenvolver, mesmo que não sejam os meus favoritos. Aceita essa realidade, me emocionei com o discurso de despedida de Mercedes: 

"Eu não vou ver vocês por um tempo, talvez por muito tempo, Vamos permanecer em contato, mas não vai ser a mesma coisa, e eu acho que tivemos abraços em grupo o suficiente para uma vida inteira. Então eu queria dizer adeus do meu jeito, com uma música. E então, eu vou sair daqui como se fosse ver todo mundo no Glee Club amanhã, e como se não fosse realmente um adeus". E aí, Mercedes Jones deixou o prédio.

Nessa toada, me emocionei também com Blaine e Kurt na Harvey Milk Elementary School, reforçando a noção de que precisamos não só sonhar, mas sonhar alto e nos rodear de amigos que ajudem esses sonhos a se tornarem realidade. "Daydream Believer" foi a melhor maneira de resumir essa noção e, com as crianças interagindo com os rapazes, ficou absolutamente adorável.

Para Sam, o primeiro "novo Finn" apresentado na série, as coisas não poderiam ser diferentes. Abraçou o legado deixado pelo seu mentor, se tornou o treinador do novo New Directions e o rei dos finais abertos. E daí que ele não foi para New York com a maioria dos amigos e que não teve par romântico definido no fim das contas? Talvez o destino de Sam seja mesmo permanecer pulando de uma namorada para a outra, e talvez não tenha nada de errado com isso. Talvez nem todo mundo precise de uma carreira grandiosa na Big Apple e o "sonhar alto" dele se resuma a inspirar aqueles adolescentes e passar o que aprendeu adiante, exatamente como Will. A última cena de Blaine e Sam da série vem para mostrar que permanecer no mesmo local nem sempre é um retrocesso e que para Sam, que faz uma lição da semana sobre country se tornar interessante e significativa, a conclusão é a mesma tomada pelo próprio Blaine enquanto o observa: "parece que estamos todos exatamente onde pertencemos".


Tina e Artie tiveram o seu final feliz meio gonzo, como não poderia deixar de ser. Não sei se Artie ficou com ela, com Kitty ou passando o rodo em NY como acontecia na fase decadente da quinta temporada, mas sinceramente, não importa. A cretinice de ter escrito um filme para Mercedes, que Tina estrelou porque ela estava muito ocupada numa turnê mundial e que acabou sendo selecionado para Sundance, digo, Slamdance Film Festival, fecha com maestria a trajetória desses excluídos entre os excluídos.

Como se tudo isso não causasse lágrimas o suficiente, vem "I Lived" para acabar com qualquer chance de sanidade dos espectadores. A experiência de ver quase todo mundo reunido, cantando e dançando depois das palavras tão poderosas de Sue, traz a casa abaixo (#googletransleite). São muitos os detalhes durante a apresentação, como Emma arregalando mais ainda o seus olhos de lêmure, desesperada, ao ver Will abraçando Terri, e Ryder entrando de mãos dadas com Unique, enquanto o coleguinha de The Glee Project, Joe Dreads, os acompanha com um olhar desconfiado. é o típico número "de final de novela" que fica eternizado, como tantos outros que nós, gleeks e espectadores eventuais que se recusam a ser chamado por esse nome, vamos rever sempre que der aquela vontade de pertencer a algo especial.

E Finn.


Músicas
"Teach Your Children": Crosby, Stills, Nash & Young - Will Schuester
"Someday We'll Be Together": Diana Ross & the Supremes - Mercedes Jones with gospel choir
"The Winner Takes It All": ABBA - Sue Sylvester and Will Schuester
"Daydream Believer": The Monkees - Kurt Hummel and Blaine Anderson with schoolchildren
"This Time": Original composition - Rachel Berry
"I Lived": OneRepublic - Will Schuester, Sam Evans, Artie Abrams, Rachel Berry, Mercedes Jones, Blaine Anderson and Kurt Hummel with Wade "Unique" Adams, Alistair, Sheldon Beiste, Mike Chang, Tina Cohen-Chang, Terri Del Monico, Quinn Fabray, Principal Figgins, Joe Hart, Jane Hayward, Carole Hudson-Hummel, Burt Hummel, Becky Jackson, Dave Karofsky, Santana Lopez, Ryder Lynn, Madison McCarthy, Mason McCarthy, Sugar Motta, Brittany Pierce, Emma Pillsbury-Schuester, Spencer Porter, Jake Puckerman, Noah Puckerman, Roderick, Matt Rutherford, Jesse St. James, Sue Sylvester, Kitty Wilde and Lauren Zizes

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